Perdão e pieguismo

perd

texto de Bárbara Libório

“Desculpas é que eu não vou pedir.Pelo que quero e o que não quero fazer”
(Os Paralamas do Sucesso – Esqueça O Que Te Disseram Sobre O Amor)

 Das muitas vezes em que disse “eu te desculpo” a alguém, só algumas foram verdadeiras. E quando eu digo “verdadeiras”, quero dizer “de coração”. Grande parte delas resumiu-se a minha consciência me obrigando a perdoar alguém só porque diplomacia é importante.

A gente aprende desde pequeno – na escola, em casa, na igreja – que perdoar é importante. E tenho certeza que é. Mas acabamos crendo que perdoar também é uma obrigação. É como se somente pessoas más fossem capaz de rejeitar pedidos de desculpas. Quem é bom de verdade sempre dá a outra face.

Os grandes perdões da minha vida nem necessitaram de pedidos. Necessitaram mesmo é de tempo. E não foram dias ou semanas, não. Foram meses, quiçá anos. Precisei de tempo para saborear todos os sentimentos que vieram antes do perdão.

 Eu senti raiva de algumas pessoas. Guardei mágoa. Quis vê-las longe de mim. E se tudo isso me faz uma pessoa ruim, que assim seja. Sem curtir até o último resquício todos esses sentimentos “ruins”, eu jamais teria limpado minha alma deles.

 As únicas duas ou três pessoas que eu perdoei de verdade precisaram passar um bom tempo longe dos meus olhos e da minha vida. E só por isso o meu perdão é verdadeiro.

 Até porque, eu precisei me perdoar também. Eu precisei olhar para dentro de mim e parar de me fazer de vítima. Precisei descobrir as minhas próprias atitudes, e ver que ninguém me guiou para um caminho de dor sozinha. Em algumas situações eu fui infantil, em outras, ranzinza, e em algumas, eu era apenas uma criança imatura ou uma pessoa magoada.

 Tem uma frase do Jean-Paul Sartre, que foi meu norte em um dos momentos mais difíceis da minha vida:“Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.”

 Eu, por bastante tempo, quis fazer com que tudo ficasse bem aos olhos dos outros. Bobagem. As únicas vezes em que consegui deixar as coisas certas foram aquelas em que eu fui fiel a mim mesma, doesse a quem doer.

 E hoje, tanto desafeto e dor se transformaram em perdão. Perdões meus aos outros, dos outros a mim e de mim a mim mesma. E quer saber? Perdoar é mesmo um presente. É como se você carregasse um baú por anos e jogasse-o no mar, enquanto corre pela areia e dá estrelinhas na beira da praia.

 Mas, se para isso, você precisar se afastar, sentir raiva ou qualquer outro tipo de frustração, sinta. Às vezes as coisas precisam arder para curar. Deixe que arda! Você, só você, sabe como encontrar o caminho para dentro de si mesmo. O resto é só pieguismo.

LOGOVejaAlto

Ps.: Lembrando que esse texto faz parte da nossa parceria com o Clipe Sem Nexo. Toda última segunda-feira do mês trocamos textos.

Você pode conferir os outros textos dessa parceria aqui.

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