Da série de Textos Aleatórios: Casamento no Metrô

Source:  http://madforyou.tumblr.com/
      Ontem eu casei com um estranho no metrô. Você nunca fez isso? Será que sou só eu? Bom, só, só eu não sou, afinal, o estranho também casou com uma estranha no metrô, no caso, eu. Só que ele não sabe disso.
Eu faço isso sempre, e sempre no metrô, ou então no ônibus. Eu encontro um alguém qualquer, que me pareça o mínimo interessante e construo uma vida inteira numa fração de segundo. E eu não sei nem o nome da criatura, mas a gente se dá muito bem e é muito feliz. Levávamos nosso cachorro para passear todo dia de manhã antes de irmos trabalhar, de quinta-feira jantávamos a luz de velas, e de sexta íamos ao barzinho em frente ao nosso apartamento, nosso filho teve jogo de futebol na escola, minha mãe gosta mais dele, o estranho, do que de mim, mas acabou.
      Tão rápido quanto o tempo entre uma estação e outra, quando o metrô não pára para aguardar o trem à frente, toda essa vida construída se dissipa pelo ar parado do vagão, no momento em que as portas automáticas se abrem. E ao ouvir aquele sol sustenido (não, é claro que eu não sei a nota musical do barulho do metrô) avisando que elas vão se fechar, é como se nada tivesse acontecido, não resta nada, nenhuma lembrança, nada de fotografias emboloradas ou pingentes sem cordão. Nem sinal de vida.

3 pensamentos sobre “Da série de Textos Aleatórios: Casamento no Metrô

  1. Comentário 1 (Do assunto em questão): Eles vão e não sabem que deveriam ficar para sempre. O azar é de quem desceu do trem e ficou com os trilhos sujos e não com cheiros, gostos e esperanças.
    Comentário 2 (Como escritor amador de Segunda): Está bem escrito, pessoal e sente-se uma verdade sonhadora e bonita nas palavas.
    Comentário 3 (Como amigo mutante e sentimental): Está lindo, dá pra sentir o cheiro do café da manhã na cama, ouvir o barulho do cachorro pedindo pra sair, imaginar a cor do piso decorflex do apartamento iluminado por uma vela equilibrada em cima de uma garrafa de vinho vazia. Suspirei um pouquinho, sempre faço isso quando leio um texto doce como esse. Parabéns.
    Comentário 4: Lembrei do meu texto “Adeus, Sofia”, só que neste caso houve um contato maior entre Sofia e o eu-lírico, eles conversaram e trocaram sorrisos, palavras e cheiros, mas acho que o valor do intocável e imprevisível (sem voz, sem cheiro e sem todos os outros sentidos) acaba sendo muito maior.

  2. Que texto LINDO. Caso todos os dias com estranhos: no metrô, na hora de atravessar a rua, na prateleira da livraria. Nunca pensei que alguém compartilhasse isso comigo.Lindo!

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